Me lembrava algodão doce, quando ela amarrava o cabelo bem alto e uns fios ainda caídos acariciavam sua nuca nua de pele clara e macia. Podia sentir na boca o gosto açucarado de Júlia.
Ela vivia entre flores, entre rendas, entre uma solidão que a mesma escondia. E escondia bem. Ela tinha um jeito ingênuo e sensual quando andava, como um vento bobo e audacioso que eleva saias. Me tornava um paralítico quando a olhava. Sua voz encantava cegos, suas mãos eram cenários. Tirava toda ordem do meu calendário, Júlia Maldita.
Lembro bem daquele dia cinza cobrindo as árvores secas do parque que ambientava um carrossel. Lembro das cores quentes dele refletindo no chão molhado. Lembro da beleza dele contrastando com o frio. A melancolia sentada nos bancos. Via Júlia, com o seu sorriso furtivo e mastigador. Ela parecia ser o fruto principal que veio junto com o carrossel e as festividades dele acariciavam-na. Ela nem sabia dos meus olhos contemplativos, vivenciava feliz com a pessoa ao lado em que deu um beijo. Eu olhando o beijo, senti o tiro.
Já no chão gelado vi uma a uma das luzes se apagando, uma a uma desfazendo de minha Júlia. Não mais com seu sorriso furtivo no rosto, pela primeira vez ela colocou seus olhos em mim, em meu rosto estúpido e silenciado reinando nas poças sujas . E se fez a cena que sempre senti aqui dentro: Júlia por cima me olhando lá em baixo aos seus pés. E as luzes vermelhas do carrossel foram se apagando, apagando. E meu sangue derramando, derramando...
Dia Frio
Por
Brenda de Oliveira
em
16.2.10
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