Deleite com Vagalumes

Deitou na cama. Olhou para o teto, como quem lembra quem pensa ou tenta imaginar um algo alguém. Olhou para o lado querendo fugir disso. Em cima da madeira do criado, uma foto. Pegou, olhou. Tentou fechar os olhos, esquivar, mas já era tarde. A imagem, já tão não imagem, sem papel, sem pele, expeliu tudo nos olhos dela tão rápido que foi como um quase incomodo como sol nas vistas.
Piscou.
Piscou de novo. Esfregou as mãos nas pálpebras e os dedos estavam cheios de algo parecido com cor. Não, não era tinta, muito longe disso. Era a Cor em si na sua própria forma física. Não há como explicar, visão alguma tato algum explica.
Franziu a testa, entendia nada. “O que é isso?” Depois disso, só gaguejava. Ao seu redor foi tudo ficando assombreado e o que incomodava não era o por das vistas mas a sensação de que as coisas diminuíam em tamanho, o mundo inteiro murchando e ela em seu tamanho agora tão grande, centímetros gigantescos solitários em tanto corpo exposto, tanta pele alpapada pelo vão das coisas, sem abrigo, em nada mais ela cabia, lugar algum, corpo algum, em si algum. Quem iria querer ficar dentro dela? Um espaço interno tão grande, muitos cantos vazios, salas ao léu, quem iria querer solidão feita de carne? Ia virar casa para o Vazio. Não queria se mover, as coisas estavam espantadas com ela e ela também. Não se movia pois a qualquer hora poderia cair e ser rasgada e comida pelo espanto, começando por bochecha e peito. “Ai!” o coração gritou. Chorou. Chorou como quem não conhecia o que era chorar, e o que se via na visão aguada não era lágrima. Ninguém sabe mas as primeiras gotas de choro que sai de olhos cegos não são lágrimas, é só a cor saindo das pupilas. Sua visão daquelas formas, cores e outro algo nãoseioque escorrendo pelo rosto em um último rio saudoso de não adeus.
Nunca mais iria ver as pluminhas de poeira caindo levemente iluminadas pela luz vinda da janela do quarto? Coisa tão bonita de se ver que só acontece em casa.
Os olhos não mais viam. Audição, tato, olfato sem visão alguma, agora só irão sentir, cheirar e ouvir. É coisa triste, mas a gente nunca pode deixar a tristeza sozinha se não ela fica triste também, e em tristeza triste não há sorriso que volte.
Ela no colo da mãe, mesmo moça, quase mulher (mãe sempre é um casulo, não importe o tamanho):
Mãããããeee...(soluços, soluços). Não pode mãe! Não posso ficar cega! (e mais soluços e frases engasgadas, tropeçadas) Não posso....
Ela parou. Então tudo parou, pois era um daqueles momentos em que até o silêncio congela, tudo a-c-a-l-m-a-d-o. Sabiam que vinha o som sussurrado de uma confissão, e esse tipo de sussurro dói o ouvido do Silêncio, então tudo para e o Silêncio prepara os ouvidos, e lá veio dela:
_Tenho medo do escuro.
A mãe olhou para ela.
_Não posso ficar cega! Eu tenho medo do escuro, mãe.
A mãe disse nada, nenhuma expressão. Tão serena. Olhou para a filha e sorriu. A garota não via, mas sentiu o hálito, não da mãe, mas do próprio sorriso. Coisa estranha. E o coração não agüentou mais desesp...

Deitada na cama.
Teto.
Piscou, piscou.
Piscou de novo, mal acreditava. Estava vendo.
Olhou os dedos. Limpos.
Passou as mãos no rosto como ato de alívio e sensação de angústia de que se foi algo ruim. Pesadelo. Suspirou. Pela janela viu a noite. Dormiu durante o entardecer. Assim, nem dia nem noite se sonha coisas que não se pode sonhar. Levantou, passou pela sala, a mãe vendo TV. Suspirou de novo, mais alívio. “Nunca mais quero ver uma fotografia em preto e branco novamente”.
Foi andar.

_Você sonhou tudo isso mesmo? Mariana perguntou.
_Ãhrã. Coisa estranha, né?! Estou meia que com medo disso até agora.
As duas em meio ao nada na fazenda.
_Olha! Vagalumes!! A amiga em excitação.
_Onde?
_Lá! Entre o escuro, perto das árvores!
_ Não consigo ver.
_Lá, oh!
_....
_Viu?...Viiiu????
Mariana olhou para a amiga. Nem precisou perguntar de novo. A garota, olhando, esqueceu de tudo por um momento. Não precisaram ficar olhando de tão longe por um tempo, logo os vagalumes já estavam entre elas. Quem via achava que elas queriam pegá-los, mas não, só queriam ficar pertinho, nem encostar, só lá, dançando com eles, e foi isso, como se no mundo não coubesse tanta sincronia e encanto de tão leve. Nem viam que eles já passavam entre as mechas de seus cabelos, entravam pelos seus poros e saiam e elas nem percebiam. Até que a moça se assustou.
_O que foi?
_É que o meu medo..
_Quê que tem seu medo!?!? Medo de que? Mariana, já com medo da amiga tão estranha desde o entardecer.
Não olhava mais para os vagalumes, só ao redor deles ao redor delas ao redor do escuro.
_Existe vagalumes dentro da cegueira....
_Hããããã??? O que há com você? Tá doida? Dormindo até agora?!?! Acorda!
Ela olhou para Mariana, e essa engoliu tudo o que disse de tão sério o olhar da amiga. Deu meia volta e saiu andando com o coração correndo, deixando Mariana. Foi para o quarto, com o sonho ainda saindo pela boca, ansiosa, como tivesse nascido naquele momento, nascida tão sabida e sabendo o que fazer com o que sabia mesmo que não tinha visto nada que já foi visto por alguém que nasceu ou que nasceu depois de ter nascido ou que morreu e está ainda vivo. E assim foi: ergueu e pós na cara dos olhos a fotografia em preto e branco.
Agora, a mãe que chorava, vendo a filha com tanta água saindo pelos olhos (a mãe só via lágrimas, água transparente. Tadinha. Nem imaginava). E no colo da mãe, desta vez ela que sorriu. O desespero da mãe foi tão grande, em pranto tão amargo que perdeu o paladar por um bom tempo depois.
Não me perguntem qual é a imagem daquela foto, e muito menos o nome da garota, essas coisas é segredo demais e não saberiam onde guardá-lo. Isso que lêem, vocês não sabem nada, nem imaginam o que seja. Um mundo de cegueira que quase nenhum cego vê. Ela viu, ela está lá, em um lugar onde as coisas não acabam, só se apagam. Onde não existem horas (no mundo dos cegos não existe horas), tempo marcado é ilusão. Aqui as coisas são determinadas por pálpebras, borboletas e vagalumes, e no ilimiar de cada piscadela se vê coisas que luz ou sombra alguma mostra ou tem, coisas imitadas por nada, por ninguém. Coisas que vocês nunca podem saber (desculpem-me, mas não podem.) Um mundo que há medo, tem que se ter medo, mas em cada descoberta da raiz dos medos desabrocha flor e faíscas que brotam pedrinhas, pedra aqui é quase milagre, e a gente as coleciona pois pedra é conchinha da terra.
Num mundo onde você não precisa dar em troca respiração para estar nele, nem nos momentos bonitos onde perder fôlego é constante e não se finda lembrança. Só precisa respirar quando se dorme porque aqui sonho nem tem tanta graça assim, pois só se sonha fantasias e coisas reais, e o Real não é feito só de realidade e imaginações. Em um lugar, onde o vento não é jogado apenas nos espaços das coisas, mas nós que somos jogados nele, com carinho, e se machucar a gente se machuca mesmo, mais nada, para quê mais?
Onde quando eu estiver com você, eu rompo suas expectativas e faço você achar que não existo mesmo existindo ali, um impossível que você vê ao lado na cama, dividindo o travesseiro. Onde, você já dentro de mim, te seco, pego todos seus tipos de choros e molhos, pego todos seus ares e poesias e misturo com meus eus e ais para cantar pra ti. E quem sabe eu choro e você seca minhas lágrimas bonitas com dedos e beijos ao som de violinos e violoncelos. E quando eu estou com você não há mais razão para existir chamas, fogo e cicatrizes outra vez, porque eu sou sua noite silenciosa que não precisa de estrelas, pois no meu corpo minhas pintinhas que sempre brilham ao sentir o toque do seu toque antes mesmo de me tocar as substituirão.
A garota sou eu, mas ainda é um segredo, pois vocês não sabem meu nome. E se sem querer um dia eu disser, tanto faz, não irão lembrar dos meus olhos mesmo. Eu, no mundo que ainda é mistério, pois não sabem como se pisa nele. No mundo em deleite com vagalumes. Eu lá, que estou há muito tempo cega desse seu mundo.

Quereres

Você não se esgotas de si.

No banho de meu peito
ilho-me em um só coração
me derreio em um só corpo.
Seguro o peso seu na língua
despida de minha saliva
revestida de teu sabor.
Nos lábios uma cor rubra,
como minha rosa
como minha dor.

Abre céu
corta véu
corta pele
abre ventre .
Ainda hei lhe sentir.

Minhas mãos,
afobadas no afago de seu possível perdão.
Lhe colho no olho.
Desmorono,
desnudo teu choro.
Pois seria pecado de covardia imunda
dizer que somos em vão.