Ligou o chuveiro.
Pôde ouvir de seu quarto a confirmação de que ela estava tomando banho.
Tudo estava dormindo. Ele, sentado, quase deitado, escutando ainda os móveis espreguiçando-se ao sair de seus sonos dentro da casa assombreada pela falta do domínio da luz do dia impedida pelas cortinas. Beges cortinas.
Quando já estava perdido em pensamento voltou em si ao ouvir a porta do banheiro se abrindo.
Assustou. Ela sempre o assusta um pouco.
O improvável estava no tempo ali. Os dois juntos eram incertos demais, e sabiam que o erro era a confirmação do que havia de ser certo.
Parados.
Pingos d’água caindo ao chão.
Se olharam.
Ele, a olhando, sem saber direito o que via.
Ela, o olhando, adornando como queira o que via.
Foi para perto dele.
O som de seu passo ensopado, o seu andado. Todo o ruído fazia parte daquele silêncio, sendo como uma música inaudível.
Em um gesto simples desenrolou-se da toalha e estendeu para ele, que levantou. Ela já de costas “Enxuga-me”.
Sem saber o que fazer, ficou parado olhando para a tolha em suas mãos e todo aquele corpo molhado.
Poucas vezes a tinha visto, mas parecia ter sido há tanto.
Nunca tinha visto seu corpo nu, mas já havia imaginado tanto.
Chegou mais perto dele. Em um ato de incentivo pegou suas mãos com a toalha e as colocou sobre seu corpo. Por camadas: a pele, as gotas, a toalha, a mão dele e por cima a dela. E em movimento de ensino o fazia secá-la em um abraço por cima de suas costas e ele vendo todoa a moldura dela por cima de tais ombros.
Deslizou o pano, ainda segurando as mãos dele. Secou a nuca... Costas... Braços... Colo... Seios....
Virou de frente e ele seguiu sozinho.
Barriga....Quadril...Coxas... Em cada curva, em cada ondulação. Pelo por pelo, lábios por lábios. A secava com tanto cuidado como se a pele dela fosse papel molhado subestimado a ser rasgado, frágil demais.
“Não toque. Não beije.” Ela nem precisava o ter dito. Ele não ousaria. Fazia tudo aquilo com as entranhas se contorcendo, quase morrendo por saber que aquilo não era pecado. Não era pecado. Mas ele não ousava, nem de seguir o pensamento da vontade de sentir seu cheiro, sentir o calor dela em contraste com o frescor das gotas.Tinha até receio dela sentir sua respiração profunda, abalada mas ainda resistente. Mas ele não ousava. Não ousava.
Só queria secá-la.
E o que via não imaginava com malícias e fantasias. Contemplava o que ela havia de ser, como se ela não fosse mulher, nem homem, nem mãe, nem estátua, nem um deus. Era apenas ela. Nem mais nem menos. E não há o quê de substituir isso. Era tão ela, tão eles. Era desejo e só. De-se-jo. E há de ser que tal desejo não é só tato: é próximo à loucura, como que querer diluir o que há por fora e fundir o que há por dentro, trocar seus sublimes. É quase que inventar sentidos.
E a secava.
Quando já estava por tornozelos, pés, com um olhar mostrou a ele suas roupas em cima da poltrona.
Vestiu-a.
Passou pelas pernas aquela delicadeza de renda preta em um tecido fininho e cobriu sua maçã. Era quase que onírico por fazer de um pano algo que se encaixava tão bem a ponto de parecer parte do corpo. E isso nunca ocorreria no corpo dele, não mesmo. Era homem.
A calça... E foi sumindo sua pele.
Depois lhe caiu a blusa. Tão leve...onde o vento fazia domínio. Florzinhas azuis e brancas estampadas por cima de um mar negro_ delicadeza plantada por entre sombras de um abismo. A contradição, os opostos vivendo em peso na blusa e por dentro dela. Ao fechar os botões trancafiou os segredos que ajudou a plantar peça por peça.Colocar é mais que tirar, isso a palavra já diz por si só mas já esquecemos disso.Desfazer mistérios para encontrar a raiz dos segredos é um caminho ilusório.Só se desfaz segredos quando os constroem, e no fim o deveras mistério vem, que não se desfaz .O encanto está no que olha e não no olhado.Vestir uma mulher é destroças pergaminhos falsos.
Pela janela a via indo, na espera de ver aquela estampa nela em outra estação.
Foi embora sem ‘tchau’. Sem beijo.
E o que me sobrou foi a cor do lugar daquela lembrança e os rastros de água pelo chão, que ainda secava.
Poderia deixar só na memória, mas ainda insisto. Só em mim ela não cabe, é por demais. Poderia compartilhar em uma música, mas ainda faltaria acalento.
Poderia fazer um desenho, mas ainda faltaria cenário.
Falar, mas faltaria som.
Mas tenho que constatar.
Que me desculpem os santos e seus anjos, mas o milagre ocorre é em mim por não derramar uma gota de sangue se quer ao escrever cada letra. Escrevo.
Pelo seu deslimite em mim, amor.
E em repassar a memória em afrontamento:
Inefável
Constatação
Por
Brenda de Oliveira
em
6.10.07
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2 comentários:
E tu disse: "E há de ser que tal desejo não é só tato: é próximo à loucura, como que querer diluir o que há por fora e fundir o que há por dentro, trocar seus sublimes. É quase que inventar sentidos."
Sei lá... difícil dizer o entendido... entendendo mesmo assim. Complexo, harmônico e estruturado, na cobertura mundana. Só não seque as palavras. São divinas.
A loucura está próxima de tudo, se não, tudo.
Sim! Faço Design Gráfico! já nos vimos por lá na FAV, mas nunca nos falamos..rs! acho q vc é do 4 periodo.. eu faço o 6.. bom.. estarei sempre passando aqui para ler os seus escritos.. acho legal!
abraço e tenha um bom dia..
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