Recadinho.

Boa Tarde.


Então, Pessoal!
Desculpem-me o grande tempo de minha ausência,
é que estou em um momento corrido da vidinha e não estou me concentrando aqui.
Quero avisá-los que não abandonei aqui nããão, viiiu! (juro!hehe)
A correria logo vai acabar e em novembro estarei novamente aqui.
É isso.
:]

Abraço!
Até novembro.

Dia Frio

Me lembrava algodão doce, quando ela amarrava o cabelo bem alto e uns fios ainda caídos acariciavam sua nuca nua de pele clara e macia. Podia sentir na boca o gosto açucarado de Júlia.
Ela vivia entre flores, entre rendas, entre uma solidão que a mesma escondia. E escondia bem. Ela tinha um jeito ingênuo e sensual quando andava, como um vento bobo e audacioso que eleva saias. Me tornava um paralítico quando a olhava. Sua voz encantava cegos, suas mãos eram cenários. Tirava toda ordem do meu calendário, Júlia Maldita.
Lembro bem daquele dia cinza cobrindo as árvores secas do parque que ambientava um carrossel. Lembro das cores quentes dele refletindo no chão molhado. Lembro da beleza dele contrastando com o frio. A melancolia sentada nos bancos. Via Júlia, com o seu sorriso furtivo e mastigador. Ela parecia ser o fruto principal que veio junto com o carrossel e as festividades dele acariciavam-na. Ela nem sabia dos meus olhos contemplativos, vivenciava feliz com a pessoa ao lado em que deu um beijo. Eu olhando o beijo, senti o tiro.
Já no chão gelado vi uma a uma das luzes se apagando, uma a uma desfazendo de minha Júlia. Não mais com seu sorriso furtivo no rosto, pela primeira vez ela colocou seus olhos em mim, em meu rosto estúpido e silenciado reinando nas poças sujas . E se fez a cena que sempre senti aqui dentro: Júlia por cima me olhando lá em baixo aos seus pés. E as luzes vermelhas do carrossel foram se apagando, apagando. E meu sangue derramando, derramando...

Mal Dito

Não importa. Me fiz feia.
Peguei seus doces e os transformei em chumbo.
Coloquei sua mão sobre meu peito e não o sentiu
pois no momento me desabitei.
Coloquei seus olhos sobre os meus,
mas me fiz escura para falhar sua visão...não me viu.
Fui um corpo podre, o mesmo que você beijou silabicamente.
Quero enterrar minha língua.
Achei que as palavras fossem só minhas e as usei.
Não somos donos das palavras. Só as águas são.
E hoje fui pedra. Você foi chuva.
Desculpas, você aí, dono dos Cantares.
Já deixei a paz para você.

Assim como àgua é espelho vivo
espelho imita lago liso.
Um escorrido abraço completo,
anos moldado por toda curvatura
ao longo de rios.

Um corpo minucioso para o seu
meu cheiro para o olfato teu.
E por você corrompido, meu ventre
em medida para um abrigo seu.

Mais que qualquer de suas opções e omissões
enfim, no fim, está Eu.

Sou boa porque sou sua.

Meu Cata-Vento

Lembra,
do chamado por ti em minha boca.
Lembra, da minha cara despida,
da nossa ânsia sentimental lasciva.
Do meu corpo aguado pelo teu nome,
dos meus lábios em seda cobrindo tua nudez.
Do meu olho molhado
do teu rosto dizendo tudo calado.
Lembro.
Lembra.
Do presente rubro de amor e dor que me deu
do presente puro e branco que lhe dei.
Pétalas guardadas por nossa fome
dizendo o que não tem nome.

Esqueça,
de ontem, daquele meu dito
pecando contra tua fé
de ser o que é, e bem sei, verdadeira.
Isso, esqueça.
Desse meu mal dito, que fez a tua fala,
em raiva, dizer coisas que fere e mata.
Esqueço.
Esqueça.
Isso de ontem, apenas ciúmes e terror
filho da sombra,
de vestígios da poeira daquilo que não largo em mim,
Você
Você
e Você

Catando meus ventos.

Beijo

Há tempos, frigindo a Madrugada dos Sonos,
o Carrasco da Luz trouxe ao meu quarto um vagalume
que sobrevoou e posou
nos meus mornos lábios infantis
deixando debaixo de minha língua
estrelinhas escondidas
anunciando minha mocidade.

Nestes tempos
Quando te vi, já bem perto,
seu beijo entrando em minha vida
apaguei as estrelinhas para eu ser Noite
e sua boca dormir, sempre,
entrelaçada na minha.

Finais

Na folha em branco, no fim do texto,
só restou o vermelho
de seu desprezo.

Segunda Narrativa Objetiva

Me calo.
Enrosco a garganta
me seguro.

Teu contorno
tua escrita
vai além da sua intenção querida,
é mais que sua letra poderia.
É menos que uma história,
pois ela ainda não se finda.

Mais que uma paisagem compactada em fotografia
de uma tristeza serena bonita
com um céu descendo
com um mar subindo.
De uma flor fazendo cena
para um solo distante
onde eu estou além de um instante.


Um comentário disso tudo
não responde todo sentimentalismo.
Não tiraria o suspiro constante
hospedado em meu meio
à dias desconfigurando meu peito.
Longe do sepulcro
nossas palavras e anseios.
Tua Narrativa Objetiva minha
nunca apagada,
indesfeita.

Te digo
mesmo quando me calo.
Te olho
mesmo longe de teus olhos.

Guerrilha de 1.512

Se eu compactasse com belos selos
não só as cartas
mas também a fronte de nossas duas faces
escorreria um beijo
renascendo as flores mortas
do jardim dos exilados
pelas guerras perdidas.

Se eu te despisse agora
com as curvas de meus selectos lábios
cicatrizaria as imperfeições da pele sua
curando nossas carnes
moles pelo cansaço
dessa nojenta guerrilha alada.
Eu, o refugiando no abrigo
do envoltar de meus escuros fios compridos.
Você, revestindo-se de meu ventre delicado.

E se tudo isso acontecesse certo
os Ventos desceriam sedas beges
cobrindo o sangue dos outros
nos campos de lodos.

E eu sei,
isso bem sei,
que as neblinas se dissolveriam para você me ver
e as últimas árvores desceriam as folhas para eu passar
indo te bucar.
Mas são meus braços o martírio alvo
que não te alcançam.
Não alcançarão.

Mais um desejo apenas desejado.
Mais uma nova carta enviada junto com as outras
mil quinhentas e onze velhas cartas.

Estranho Abril

Abro Abril.
Abro a janela.

Vejo,
jorrou caju em meu terreiro.
Um véu negro de luto
por quase tudo.
Na causa da mancha, sangue de cajus
no azulejo de um chão que testemunha céus.

E penso,
Quem, nesses tempos, está punindo esta casa,
os deuses
ou o Cajuzeiro?

Antepenúltimo Poema

Em quarto preto e branco.
Xadrez.

Rei e Rainha,
rosto colado
fios e pelos dados
mãos nos cabelos
peitos em beijo
sono em reino
sonho de travesseiro.

Luz aberta em som.
Os dois sem cor
mas com tom.

Como se fosse sempre a penúltima vez
ou antepenúltima
mas nunca a última,
Amor.

Quadro


Folha. Pata.
Tronco, chão.
Casco e o cavalo.
Bosque e mão.

Entre esquadros, meu rosto pálido
enquadrado,
a moldura tampa minha visão dos lados.

Além do mais,
porque os olhos se enganam
e as coisas dizem além do que um olhar certo pode enxergar.
A pintura já constatou, mas ninguém viu,
que a visão ainda não ganhou olhos de presente.

Bem Breve

Meu traveseiro hoje suspirará
nenhuma lágrima minha nesta noite
o acordará.

O amanhã vai vir e acordarei bem
sem lembrar de seu nome
e nossos cognomes.

Mas..

Espera.

Sempre tive fadiga , desde após meu parto,
após o primeiro joelho ralado,
belas visões em quartos,
e choro calado.
Não é difícil do erro sangrar
depois que se aprende a chorar.
Virei objeto de espera.
Então apreça, me desassossega.

Beijar teu olho
Entoar teu coro
Suavizar teu verso.

Fadiga, fadiga. Isso me faz entortar.
Não por não ter abrigo
é por não caber no maior teto mesmo sendo o menor possível.
Saudade é saber nada quando o mais latente está a alma.
E ainda há muito do seu ato não cometido
que tem de ser por mim adquirido.
Ainda há um canto do corpo seu
por meus dedos não cobrido.
Detalhes ainda não vivido de um amor vivo.
Então apareça,
me aqueça,
em nossa terra do Cerrado frio.

Sonho

Sonho não é apenas memória oculta em névoa.
Sonho é acontecimento interno e o mais privado.
Meu fato único.
Sou eu somente em mim.

Nu

Mar,
quem lhe cobrirás?
Se mesmo o céu
é você em outros cais.

Óh! Mar!
Quem lhe abrigarás?

Degustação

Não sinto fome só dentro da barriga.
Lhe devoraria sem desperdícios.
Mas sou tão egoísta.
Nem me molho,
nem te seco.
Tenho ciúme intenso e invisível,
o escondo em um medo fexílvel.

Um dia ponho à mostra
minhas sanguessugas de desejos.
Sou farta em poesia
e seios.

Música

Quando as pessoas me tocam
dão-me o direito de morrer,
sem eu ter o direito de escolher receber isso.
Mas a questão é que não são só pessoas que me tocam.

Sobre Postes



Na face,
o rosto inteiro
um Olho.

Para caber melhor
tanto choro luz.

(Brenda de Oliveira)




*Imagem: fotografia de Filipa Andrade

Deleite com Vagalumes

Deitou na cama. Olhou para o teto, como quem lembra quem pensa ou tenta imaginar um algo alguém. Olhou para o lado querendo fugir disso. Em cima da madeira do criado, uma foto. Pegou, olhou. Tentou fechar os olhos, esquivar, mas já era tarde. A imagem, já tão não imagem, sem papel, sem pele, expeliu tudo nos olhos dela tão rápido que foi como um quase incomodo como sol nas vistas.
Piscou.
Piscou de novo. Esfregou as mãos nas pálpebras e os dedos estavam cheios de algo parecido com cor. Não, não era tinta, muito longe disso. Era a Cor em si na sua própria forma física. Não há como explicar, visão alguma tato algum explica.
Franziu a testa, entendia nada. “O que é isso?” Depois disso, só gaguejava. Ao seu redor foi tudo ficando assombreado e o que incomodava não era o por das vistas mas a sensação de que as coisas diminuíam em tamanho, o mundo inteiro murchando e ela em seu tamanho agora tão grande, centímetros gigantescos solitários em tanto corpo exposto, tanta pele alpapada pelo vão das coisas, sem abrigo, em nada mais ela cabia, lugar algum, corpo algum, em si algum. Quem iria querer ficar dentro dela? Um espaço interno tão grande, muitos cantos vazios, salas ao léu, quem iria querer solidão feita de carne? Ia virar casa para o Vazio. Não queria se mover, as coisas estavam espantadas com ela e ela também. Não se movia pois a qualquer hora poderia cair e ser rasgada e comida pelo espanto, começando por bochecha e peito. “Ai!” o coração gritou. Chorou. Chorou como quem não conhecia o que era chorar, e o que se via na visão aguada não era lágrima. Ninguém sabe mas as primeiras gotas de choro que sai de olhos cegos não são lágrimas, é só a cor saindo das pupilas. Sua visão daquelas formas, cores e outro algo nãoseioque escorrendo pelo rosto em um último rio saudoso de não adeus.
Nunca mais iria ver as pluminhas de poeira caindo levemente iluminadas pela luz vinda da janela do quarto? Coisa tão bonita de se ver que só acontece em casa.
Os olhos não mais viam. Audição, tato, olfato sem visão alguma, agora só irão sentir, cheirar e ouvir. É coisa triste, mas a gente nunca pode deixar a tristeza sozinha se não ela fica triste também, e em tristeza triste não há sorriso que volte.
Ela no colo da mãe, mesmo moça, quase mulher (mãe sempre é um casulo, não importe o tamanho):
Mãããããeee...(soluços, soluços). Não pode mãe! Não posso ficar cega! (e mais soluços e frases engasgadas, tropeçadas) Não posso....
Ela parou. Então tudo parou, pois era um daqueles momentos em que até o silêncio congela, tudo a-c-a-l-m-a-d-o. Sabiam que vinha o som sussurrado de uma confissão, e esse tipo de sussurro dói o ouvido do Silêncio, então tudo para e o Silêncio prepara os ouvidos, e lá veio dela:
_Tenho medo do escuro.
A mãe olhou para ela.
_Não posso ficar cega! Eu tenho medo do escuro, mãe.
A mãe disse nada, nenhuma expressão. Tão serena. Olhou para a filha e sorriu. A garota não via, mas sentiu o hálito, não da mãe, mas do próprio sorriso. Coisa estranha. E o coração não agüentou mais desesp...

Deitada na cama.
Teto.
Piscou, piscou.
Piscou de novo, mal acreditava. Estava vendo.
Olhou os dedos. Limpos.
Passou as mãos no rosto como ato de alívio e sensação de angústia de que se foi algo ruim. Pesadelo. Suspirou. Pela janela viu a noite. Dormiu durante o entardecer. Assim, nem dia nem noite se sonha coisas que não se pode sonhar. Levantou, passou pela sala, a mãe vendo TV. Suspirou de novo, mais alívio. “Nunca mais quero ver uma fotografia em preto e branco novamente”.
Foi andar.

_Você sonhou tudo isso mesmo? Mariana perguntou.
_Ãhrã. Coisa estranha, né?! Estou meia que com medo disso até agora.
As duas em meio ao nada na fazenda.
_Olha! Vagalumes!! A amiga em excitação.
_Onde?
_Lá! Entre o escuro, perto das árvores!
_ Não consigo ver.
_Lá, oh!
_....
_Viu?...Viiiu????
Mariana olhou para a amiga. Nem precisou perguntar de novo. A garota, olhando, esqueceu de tudo por um momento. Não precisaram ficar olhando de tão longe por um tempo, logo os vagalumes já estavam entre elas. Quem via achava que elas queriam pegá-los, mas não, só queriam ficar pertinho, nem encostar, só lá, dançando com eles, e foi isso, como se no mundo não coubesse tanta sincronia e encanto de tão leve. Nem viam que eles já passavam entre as mechas de seus cabelos, entravam pelos seus poros e saiam e elas nem percebiam. Até que a moça se assustou.
_O que foi?
_É que o meu medo..
_Quê que tem seu medo!?!? Medo de que? Mariana, já com medo da amiga tão estranha desde o entardecer.
Não olhava mais para os vagalumes, só ao redor deles ao redor delas ao redor do escuro.
_Existe vagalumes dentro da cegueira....
_Hããããã??? O que há com você? Tá doida? Dormindo até agora?!?! Acorda!
Ela olhou para Mariana, e essa engoliu tudo o que disse de tão sério o olhar da amiga. Deu meia volta e saiu andando com o coração correndo, deixando Mariana. Foi para o quarto, com o sonho ainda saindo pela boca, ansiosa, como tivesse nascido naquele momento, nascida tão sabida e sabendo o que fazer com o que sabia mesmo que não tinha visto nada que já foi visto por alguém que nasceu ou que nasceu depois de ter nascido ou que morreu e está ainda vivo. E assim foi: ergueu e pós na cara dos olhos a fotografia em preto e branco.
Agora, a mãe que chorava, vendo a filha com tanta água saindo pelos olhos (a mãe só via lágrimas, água transparente. Tadinha. Nem imaginava). E no colo da mãe, desta vez ela que sorriu. O desespero da mãe foi tão grande, em pranto tão amargo que perdeu o paladar por um bom tempo depois.
Não me perguntem qual é a imagem daquela foto, e muito menos o nome da garota, essas coisas é segredo demais e não saberiam onde guardá-lo. Isso que lêem, vocês não sabem nada, nem imaginam o que seja. Um mundo de cegueira que quase nenhum cego vê. Ela viu, ela está lá, em um lugar onde as coisas não acabam, só se apagam. Onde não existem horas (no mundo dos cegos não existe horas), tempo marcado é ilusão. Aqui as coisas são determinadas por pálpebras, borboletas e vagalumes, e no ilimiar de cada piscadela se vê coisas que luz ou sombra alguma mostra ou tem, coisas imitadas por nada, por ninguém. Coisas que vocês nunca podem saber (desculpem-me, mas não podem.) Um mundo que há medo, tem que se ter medo, mas em cada descoberta da raiz dos medos desabrocha flor e faíscas que brotam pedrinhas, pedra aqui é quase milagre, e a gente as coleciona pois pedra é conchinha da terra.
Num mundo onde você não precisa dar em troca respiração para estar nele, nem nos momentos bonitos onde perder fôlego é constante e não se finda lembrança. Só precisa respirar quando se dorme porque aqui sonho nem tem tanta graça assim, pois só se sonha fantasias e coisas reais, e o Real não é feito só de realidade e imaginações. Em um lugar, onde o vento não é jogado apenas nos espaços das coisas, mas nós que somos jogados nele, com carinho, e se machucar a gente se machuca mesmo, mais nada, para quê mais?
Onde quando eu estiver com você, eu rompo suas expectativas e faço você achar que não existo mesmo existindo ali, um impossível que você vê ao lado na cama, dividindo o travesseiro. Onde, você já dentro de mim, te seco, pego todos seus tipos de choros e molhos, pego todos seus ares e poesias e misturo com meus eus e ais para cantar pra ti. E quem sabe eu choro e você seca minhas lágrimas bonitas com dedos e beijos ao som de violinos e violoncelos. E quando eu estou com você não há mais razão para existir chamas, fogo e cicatrizes outra vez, porque eu sou sua noite silenciosa que não precisa de estrelas, pois no meu corpo minhas pintinhas que sempre brilham ao sentir o toque do seu toque antes mesmo de me tocar as substituirão.
A garota sou eu, mas ainda é um segredo, pois vocês não sabem meu nome. E se sem querer um dia eu disser, tanto faz, não irão lembrar dos meus olhos mesmo. Eu, no mundo que ainda é mistério, pois não sabem como se pisa nele. No mundo em deleite com vagalumes. Eu lá, que estou há muito tempo cega desse seu mundo.

Quereres

Você não se esgotas de si.

No banho de meu peito
ilho-me em um só coração
me derreio em um só corpo.
Seguro o peso seu na língua
despida de minha saliva
revestida de teu sabor.
Nos lábios uma cor rubra,
como minha rosa
como minha dor.

Abre céu
corta véu
corta pele
abre ventre .
Ainda hei lhe sentir.

Minhas mãos,
afobadas no afago de seu possível perdão.
Lhe colho no olho.
Desmorono,
desnudo teu choro.
Pois seria pecado de covardia imunda
dizer que somos em vão.

Em meu criado-mudo

Transparência estampada
no porta-retratos
habitado pela nossa fotografia
que nunca existiu.

Pra dizer Oi

A tal carta minha não vai mesmo chegar.
Pra te ver, te alcançar
roubo uma flor na portaria
degrado os degraus.
Já tão perto de seu apartamento
em cada andar
eleva dor.

Escritor

Ia escrever sobre desassossegos.
Mas lembrei que desde antes
nunca soube escrever histórias sobre amores.
E outra, poderia demonstrar erros bonitos
e defeitos invejáveis que se tem um poeta...
Mas desgraçadamente agora também lembrei
que amor nunca precisou de palavra.

Ceia

O jantar está na mesa.
Fatias de você no prato,
à sua frente,
ainda gritando, gemendo
contorcendo,
derramando sangue infindável.
Faz de dedos algo que corta.
Se dobra, abre e desdobra.
Em um susto não surpreendente
vira do avesso.
Se dando à ceia
para um tempo sem data.
Ser poeta:
vomitar a falta que lhe preenche.

Bendito Seja o Título

.

Sou casta. Eu sei...
É que há uns vinte anos a programação de meus sábados
é desvirginar palavras novas.

Aniversários

O rosto não muda. Mesmo as linhas dele tomarem outros rumos, rios, rugas, mas é sempre o mesmo; a perdura do olhar confirma.
O que muda em você são seus silêncios.




(para Mayra.)

Sol(idão)

Sol triste,
ilumina e faz sombra.
Mas nunca viu
sua própria sombra

Sobre poças d'água



Pare!
O asfalto disse aos pés.
Entre ele e a esquina do seu caminho um mar de espelhos.
Um filme de imagens pratiadamente belas de um tudo de um todo.
Teve medo.
Não de afogar. A vida já é um afogamento no tempo e em tempos.
Era medo de que em goles e goles daquela água impregnada de sua imagem, ele ficar encharcadode si.
Não se morre só da perda de si em si.
Também se morre da embriagues de si em si só


Brenda de Oliveira



*(Imagem: foto 'Uma pedra caiu' de Rita Apoena : http://www.pequenascoisas.org )

Constatação

Ligou o chuveiro.
Pôde ouvir de seu quarto a confirmação de que ela estava tomando banho.
Tudo estava dormindo. Ele, sentado, quase deitado, escutando ainda os móveis espreguiçando-se ao sair de seus sonos dentro da casa assombreada pela falta do domínio da luz do dia impedida pelas cortinas. Beges cortinas.
Quando já estava perdido em pensamento voltou em si ao ouvir a porta do banheiro se abrindo.
Assustou. Ela sempre o assusta um pouco.
O improvável estava no tempo ali. Os dois juntos eram incertos demais, e sabiam que o erro era a confirmação do que havia de ser certo.
Parados.
Pingos d’água caindo ao chão.


Se olharam.
Ele, a olhando, sem saber direito o que via.
Ela, o olhando, adornando como queira o que via.
Foi para perto dele.
O som de seu passo ensopado, o seu andado. Todo o ruído fazia parte daquele silêncio, sendo como uma música inaudível.
Em um gesto simples desenrolou-se da toalha e estendeu para ele, que levantou. Ela já de costas “Enxuga-me”.
Sem saber o que fazer, ficou parado olhando para a tolha em suas mãos e todo aquele corpo molhado.
Poucas vezes a tinha visto, mas parecia ter sido há tanto.
Nunca tinha visto seu corpo nu, mas já havia imaginado tanto.
Chegou mais perto dele. Em um ato de incentivo pegou suas mãos com a toalha e as colocou sobre seu corpo. Por camadas: a pele, as gotas, a toalha, a mão dele e por cima a dela. E em movimento de ensino o fazia secá-la em um abraço por cima de suas costas e ele vendo todoa a moldura dela por cima de tais ombros.
Deslizou o pano, ainda segurando as mãos dele. Secou a nuca... Costas... Braços... Colo... Seios....
Virou de frente e ele seguiu sozinho.
Barriga....Quadril...Coxas... Em cada curva, em cada ondulação. Pelo por pelo, lábios por lábios. A secava com tanto cuidado como se a pele dela fosse papel molhado subestimado a ser rasgado, frágil demais.
“Não toque. Não beije.” Ela nem precisava o ter dito. Ele não ousaria. Fazia tudo aquilo com as entranhas se contorcendo, quase morrendo por saber que aquilo não era pecado. Não era pecado. Mas ele não ousava, nem de seguir o pensamento da vontade de sentir seu cheiro, sentir o calor dela em contraste com o frescor das gotas.Tinha até receio dela sentir sua respiração profunda, abalada mas ainda resistente. Mas ele não ousava. Não ousava.
Só queria secá-la.
E o que via não imaginava com malícias e fantasias. Contemplava o que ela havia de ser, como se ela não fosse mulher, nem homem, nem mãe, nem estátua, nem um deus. Era apenas ela. Nem mais nem menos. E não há o quê de substituir isso. Era tão ela, tão eles. Era desejo e só. De-se-jo. E há de ser que tal desejo não é só tato: é próximo à loucura, como que querer diluir o que há por fora e fundir o que há por dentro, trocar seus sublimes. É quase que inventar sentidos.
E a secava.
Quando já estava por tornozelos, pés, com um olhar mostrou a ele suas roupas em cima da poltrona.
Vestiu-a.
Passou pelas pernas aquela delicadeza de renda preta em um tecido fininho e cobriu sua maçã. Era quase que onírico por fazer de um pano algo que se encaixava tão bem a ponto de parecer parte do corpo. E isso nunca ocorreria no corpo dele, não mesmo. Era homem.
A calça... E foi sumindo sua pele.
Depois lhe caiu a blusa. Tão leve...onde o vento fazia domínio. Florzinhas azuis e brancas estampadas por cima de um mar negro_ delicadeza plantada por entre sombras de um abismo. A contradição, os opostos vivendo em peso na blusa e por dentro dela. Ao fechar os botões trancafiou os segredos que ajudou a plantar peça por peça.Colocar é mais que tirar, isso a palavra já diz por si só mas já esquecemos disso.Desfazer mistérios para encontrar a raiz dos segredos é um caminho ilusório.Só se desfaz segredos quando os constroem, e no fim o deveras mistério vem, que não se desfaz .O encanto está no que olha e não no olhado.Vestir uma mulher é destroças pergaminhos falsos.
Pela janela a via indo, na espera de ver aquela estampa nela em outra estação.
Foi embora sem ‘tchau’. Sem beijo.
E o que me sobrou foi a cor do lugar daquela lembrança e os rastros de água pelo chão, que ainda secava.
Poderia deixar só na memória, mas ainda insisto. Só em mim ela não cabe, é por demais. Poderia compartilhar em uma música, mas ainda faltaria acalento.
Poderia fazer um desenho, mas ainda faltaria cenário.
Falar, mas faltaria som.
Mas tenho que constatar.
Que me desculpem os santos e seus anjos, mas o milagre ocorre é em mim por não derramar uma gota de sangue se quer ao escrever cada letra. Escrevo.
Pelo seu deslimite em mim, amor.
E em repassar a memória em afrontamento:
Inefável

Em corpo e ar

Sento
em qualquer beira
qualquer canto
vento
banco.
E me faço cadeira.

Eu, quase intacta
quase dura.
Serena
esfolio meus lamentos
de minha madeira.

Eu
me envernizando

_Que foi com seus olhos?
_Estava chorando.
_Por que?
_Por que sou aguada.
_E o que isso tem a ver?
_Tudo e nada.
_Deixa disso, vai. Vem cá...
_Esqueceu os de mim? Eu não esqueci que chuva desagua mares em conta-gotas nesses meses de setembro.
_Ôôôh, Miriam. Você diz coisas tão bonitas.
_Larga de bobagem! Não estou aqui para dizer coisas bonitinhas.
Isso é serio.
Amor é saber afogar em sertões. Mas eu sou mar e estou longe disso. Tão longe...

Infância

Quando se faz curiosa de si e entre visões de um mundo que se tem só seu, na ponta dos pés desfiz de meus pudores sem receio do que há de ser e vir.
Descarreguei nos brinquedos muitas vezes o fingimento de brincar para poder entrar em meu particular sem ter culpa.
Que já tão cedo fiz da minha solidão um acalento e de sonhos um deslizamento para o cotidiano natural. Os fatos não são meus mas o que está na memória ainda mais daquilo que não aconteceu isso sim é de ser muito meu e apesar de gostar dos ‘sim’ o ‘não’ também é de mim, que até hoje não me sou arrependimento.
Fiz de minha infância uma zona de serenidade em qualquer modo de pensamento e ato a ponto de não preocupar com o medo de imaginar, descobrir e ouvir e desde já rasguei com cílios minhas censuras.
Eu me aceito.

Mundos

Mistério é coisa de quintal.

Vale dos Olhos

Dedos na ponta do céu.

O vento está rouco.
Rouquidão.
É a voz nos vales
das palavras que pensei em dizer.
Mas só serão ditas na oportunidade em sangrar
quando eu falar.
Nosso amor-de-adeus,
dói bem mais que um olhar.

Depois dela aprendeu a chorar.
Foi tanto aprendizado que se perdeu...
Virou o próprio choro.

Um Corpo chora
Um Choro descorpora.

E lá se vai:
Pedacinhos dele
deslizando sobre a lágrima.